domingo, 14 de março de 2010

Uma história para pré-adolescentes

Essa é a minha primeira tentativa escrever para pré-adolescentes. O texto que segue já está há bastante tempo no meu computer. Dei uma revisada e lá vai...

Ele...







Eu sei que não deveria invadir a casa de ninguém, ainda mais sob as condições em que me encontrava. Mas achava que ele era meu amigo - ou até mais do que isso... E precisava de mim.



Eu o conheci em uma noite de chuva fina. Eu saía da escola, sempre com o medo das dez e meia da noite. Ele estava encolhido em um canto, escondendo a cabeça sob uma pesada e velha capa. Achei, pela estatura, que era um colega meu. Aproximei-me, oferecendo-lhe carona na minha sombrinha:



- Rafael, vem comigo. Não fica aí te molhando.



Quando terminei de falar, ele revelou aquele rosto branco. Branco demais. Estanquei com o susto. Rapidamente olhei em volta. Ninguém na rua.



- Não sou Rafael, sou Renato, Ana Paula... Ei, não precisa ter medo. Só estou molhado! – disse-me ele, de um jeito simpático e cativante.



Quis disfarçar meu medo: apesar de branquela, ele era bem bonitinho...



- Afinal, você não deve ser medrosa, voltando sozinha da escola a uma hora dessas, nessa escuridão e nessa chuva.



Claro que eu não era medrosa. Claro que eu não era tímida. Mas o que também era claro que não conseguia articular algo inteligente o bastante para dizer a ele. Ofereceu-se para me acompanhar até em casa – que remédio? No caminho, falamos pouco, quero dizer, eu só falei algumas asneiras monossilábicas.



- Então te deixo aqui. Vê se não fica dando confiança assim para estranhos como eu, tá? - disse-me ele, sorrindo do seu jeito, com os lábios unidos.



Balbuciei qualquer besteira e entrei correndo em casa. De onde veio aquele Renato que nunca vi mais branco e sedutor? Só podia ser novo na cidade. Ali todos nos conhecíamos...Depois, antes de dormir, fiquei repassando o acontecido e dei-me conta de que ele já sabia o meu nome. Será que alguém ... deixa assim.



Dormi mal, acordei com muita sede, como se tivesse tomado um porre. Logo eu... Estava distraída, não conseguia me concentrar no trabalho, muito menos nas bobagens das aulas de gramática. Na saída da aula, esperei meus colegas tomarem certa distância. Minha intuição se confirmou: ele estava no mesmo lugar.



Noite após noite, encontrávamo-nos na saída da aula. Sabia tão pouco sobre ele. Apenas onde morava, os pais eram muito ocupados, pesquisadores, morou em vários lugares do mundo. Conversávamos sobre música, filosofia, poesia ... ou ficávamos calados, contemplando a Lua. Queria beijá-lo, ou melhor, queria, desejava que ele me beijasse – mas isso não acontecia. Só me olhava no fundo dos olhos e era como se eu saísse do ar por breves instantes e voltasse com muita, mas muita sede de sei-lá-o-quê, como naquele primeiro dia.



Uma noite dessas, ele não apareceu. Ventava, ventava muito. Eu andava a esmo, tentando entender o porquê de sua falta. Meus passos me guiaram até a velha casa onde ele morava. Muita fumaça saía lá de dentro. E se ele estivesse desmaiado? Juntei meus caquinhos de coragem e derrubei, com muita facilidade, a velha porta carcomida por cupins. Na sala, um único móvel: uma poltrona enorme e antiga, na qual ele estava sentado. Ao fundo, o fogo já estava adiantado. Apavorada, gritei:



- Vamos, Renato, saia daí! O fogo!



- Tarde demais. – Respondeu sem pressa.



- Tarde por quê? Ainda dá tempo. E os seus pais? Camos ajudá-los!



Ele, calmo, aproximou-se de mim. Estava com uma capa, mas, desta vez, novinha em folha. Abraçou-me e envolveu-me com a capa. Por cima de seu ombro, eu via, apavorada, o fogo se aproximando.



- Não há pais. Não há Renato. Só o renascido. Lestat, lembra? É tarde demais, porque, também nesta existência, apaixonei-me pela minha presa. Pela sétima vez, te amei. Agora posso me libertar da minha maldição de vampiro. Serei devorado pelas chamas e renascerei, livre. Venha comigo! – Disse, sorrindo com a boca aberta pela primeira vez, exibindo os caninos brancos.



Era como se cenas de um filme antigo rodassem em minha memória. Vagas lembranças em preto-e-branco de lugares distantes assombraram-me. Nós já nos conhecíamos. Ele lia meus pensamentos. Quando me olhava no fundo dos olhos... O tempo fora do ar. A sede. O fato de já saber meu nome. Tudo explicado.



Quis desvencilhar-me de seus braços, quis desviar o olhar. Mas ele segurou-me firme, com uma das mãos segurando meu rosto em sua direção.



Acordei-me horas depois, na sala de emergência do hospital. Os médicos murmuravam qualquer coisa como “não é possível”, “mas ela estava toda queimada”. Uma enfermeira olhou-me com tamanha compaixão que criei coragem de perguntar por Lestat, ou Renato.



- Não havia mais ninguém naquela casa. Ela está abandonada há anos. O que uma mocinha como você estava fazendo lá?



Fingi que estava sonolenta. Não podia responder. Mais e mais médicos em minha volta. Parecia que estavam muito admirados. Um deles ordenou à enfermeira que me preparasse para os exames. Quando viraram as costas, fugi pela janela.



Hoje, continuo com uma sede tremenda. Mas já sei o que a sacia. O meu nome, depende. Hoje é Natasha. Amanhã, não sei. Quem sabe nós nos encontraremos na próxima esquina?

3 comentários:

  1. Interessante a história, és escritora para todas as idades.Sucesso nessa nova carreira.Abraços,Inês

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  2. gostei bastante eu tenho 12 anos amei

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    1. Muito obrigada, Emilly! Fico muito feliz em saber! Abraços

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