terça-feira, 6 de abril de 2010

O Fusca

Um dia após o Natal, a notícia arranca o menino do mundo dos carrinhos e do Hering Hast. Ele solta uma exclamação:


- Não, eu não quero ser tio!

O guri chora que se derrete. Não, não vai ao hospital ver sobrinho nenhum. Nem Chico nem Francisco. Mas por quê? Só o pai entende a resposta soluçada:

- Só tenho seis anos. Não quero ser velho.

O pai abana a cabeça, orgulhoso da engenhosidade do futuro engenheiro. Aninha o rapazinho no seu peito. Não, ele não ficaria velho. Nem morreria logo. Ninguém morreria: nem o guri, nem o pai. Era promessa selada com surpresa.

O pai leva-o até a frente da casa. De olhos tapados com as mãos enormes e calejadas do pai. O menino ouve o ranger do portão, o pai destapa os olhos do filho e anuncia:

- É nosso!

Um fusca. Azul, mas não do tom do Grêmio, que o pai não é nem bobo. Um fusca! Estalando de novinho. O vizinho grita um cumprimento, no que o pai responde:

- Anota, aí, Seu Mendes! 1974 foi meu ano: fico avô e compro com Fusca estalando de novinho! Tudo de uma vez só! Feliz ano novo pro Senhor também.

O rapazinho esquece a velhice súbita. Embarca no carro. Vai atrás. Que importa se o destino é o hospital? Era um Fusca, dum azul bonito. A mãe senta ao lado do pai. Ela puxa o espelho retrovisor e retoca o batom, que podem fazê-la avó, mas velha, acabada, nunca.

O sobrinho até que é bonitinho. O pai agora é avô. Fica mais doce. Aposenta-se. Deixa o filho às vezes dormir no carro. Pega o guri no meio da noite, ajeita-o na cama quentinha. O Fusca anda, todo dia. Missa, casa de amiga da mãe, chácara da vizinha, missa, casa, aniversário do neto, batizado das netas, casamento da filha, formatura do primeiro grau do rapazinho.

Os filhos resolvem trabalhar longe. O rapazinho resolve estudar longe. O Fusca muda de garagem, de estado. Todos mudam de casa. O Fusca leva as malas. Leva os netos para escola. Busca a filha na maternidade. Passeia. Todas as tardes. Cuida dos netos à noite. O Fusca precisa de chapeação. O rapazinho trabalha, o rapaz paga. Compra uns acessórios bacanas. O Fusca, orgulhoso, fica moderninho: rodados pintados de preto. Os netos, meia dúzia, bagunçam no carro. O avô, feliz, leva e traz. A avó senta ao lado do seu motorista.

O rapaz compra um carro. Não um Fusca: nada de rivais. Um Gol, novidade sem graça, bobagem por necessidade. O rapaz casa. Esconde as malas da viagem de lua-de-mel no porta-malas, longe da criatividade mordaz dos amigos. O Fusca é fiel escudeiro. O rapaz se faz engenheiro. O Fusca, contrariado, fica na garagem, que o pai está muito emocionado para dirigir naquela noite. O Fusca teve ímpetos de ir sozinho, mas essa já é outra história.

Certo dia, o Fusca se nega a sair da garagem. Rabugice tão aguda quanto a dor que o avô sente na cabeça. O avô cai de cama. O pai vira filho, criança de fralda. O Fusca não tem mais motorista, os netos, a mulher. Os netos não podem, não têm tempo. O rapaz decide pela venda, o doloroso pelo certo. O Fusca se vende para o vizinho da outra quadra. Lá de longe, os faróis redondos veem ambulâncias, carros de médicos, nutricionistas, fisioterapeutas. O carro do filho mais velho desaparece. A lataria precisa de reparos. O Fusca se vende para um vizinho do outro lado da rua. Está mais próximo, mas não vê os carros dos netos. Ninguém arruma o Fusca.

O Fusca se vende para o vizinho ao lado. Precisa ver o que está acontecendo. Os faróis alcançam seu dono. Piscam de raiva ao ver sua rival de duas rodas. O pai não está feliz com seu Fusca de duas rodas paralelas. O Fusca fumaça. Não pode levar a esposa, nem as amigas da esposa, nem as amigas das amigas. Ninguém daquela casa senta mais nos bancos. O estofamento precisa de reparos. O Fusca se vende para o vizinho dos fundos.

O Fusca espia o carro do rapaz. Vê uma cadeirinha de bebê. O novo dono pede para deixar o Fusca na garagem antiga. O motor estremece. Não, não pode. A mulher não tem como limpar suas manchas de óleo. O novo dono resolve vender o Fusca para o ferro velho.

O Fusca tem medo do guincho. Colocam-no sobre um caminhão. Não, ele não merece o desmanche. Colocam-no no chão. Quando pensa em queimar seus faróis, uma grande porta se abre e ele espia, temeroso, uma imensa garagem clara e limpa. Nenhum cheiro de óleo. Uns equipamentos esquisitos. Aquilo não era um desmanche. Vê umas peças reluzentes. Não, não seria desmachado, destroçado, dilacerado. Seria o céu dos Fuscas? Reconhece uma silhueta. Um certo conforto o invade. Sim, reconhece o calor daquela mão sobre sua lataria. Ouve uma voz que testemunhou engrossar:

- Quero tudo original. E azul bem escuro. Nada de azul Grêmio. Nem se façam de bobos.

4 comentários:

  1. Luh, que belo conto! Lembrei de vários "fucas" que fizeram parte da história da minha vida...Continuo dizendo que és a Luh dos vários talentos, mas o teu texto adulto me emociona muito.Abração,Juh

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  2. Luh, tu me fez chorar. Muito emocionante. Antes do final eu mesma já queria buscar o fusquinha.

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  3. Muito bom... Principalmente pelo fato de eu ter um fusca na garagem que era do Pai!

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