segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Domingueira II

   A vida deve ser mais fácil para quem vive próximo de acidentes geográficos, pensou ela. Era mais fácil, sim. Haveria de ser. Não era mais um pensamento de domingo à noite. Se o dia estava estressante, tudo bem, o mar ficava a duas quadras. Se a sogra encheu o saco, nada de mal atingiria: dez minutos de bicicleta e estaria à beira de um cânion, vento fresco batendo na cara, segurando o dedo de Deus. Se o caso fosse de gente invejosa e chata, era só esperar o final do expediente. Caminharia descalça à beira da lagoa, areia grossa massageando os pés, marolinhas para refrescar a alma. E o verde. O verde... pastai, pastai olhos meus.


    O fato é que ela morava na grande cidade média. E era domingo. E tudo voltaria à média. Até sexta, teria inveja das vacas que ela via de relance, no caminho para um dos trabalhos, ruminando ao sol.

    Cogitou ligar para um dos chefes, demitir-se naquele instante, nem ir na segunda. Sorriu ao pensar em dormir até as 10. Olhou os gêmeos no berço. Não, e a faculdade deles, quem vai garantir? O emprego do marido era bom, dava conta. Mas e se até lá não desse mais? E se não arrumasse outra coisa? E se... Um dos gêmeos choramingou, era bom atender logo, antes que acordasse o outro.

    Fez contas mentalmente. Era boa nisso. Pensou em se demitir do outro emprego. Mas aquele era legal, os colegas gente-fina. Não, não dava. Quer dizer, até daria, mas e o medo? E se... E se?

   Pensou em conversar com o marido. Ele queria ver a última reportagem do Fantástico. As mesmas notícias. Sempre. Aquela musiquinha punha-lhe os nervos em bolas de fogo. Fez um chá. Não, o marido não quis. A tal da reportagem não vinha nunca. Sobre o quê, mesmo? De novo? Os empregos, os chefes, os colegas, as pilhas de problemas para resolver. E se...

   A reportagem veio, o marido nem prestou atenção, trabalhando no laptop. Muito menos ela. E se ela fizesse de conta que dormia, o fingimento resultaria em sono? Tentava. O marido não desligava aquele troço. E se ela jogasse contra a parede? Não, muito caro.

   E se ela pedisse para ele desligar?

   - Benhê, não vai dormir?

   ...

   E se ela pedisse mais diretamente? Não era hora de discutir. Isso tiraria de vez a possibilidade do sono. E se ela pedisse uma redução de carga horária no emprego chato? Não, mais reduzida do que está não daria. E se eles a mandassem embora? Tomariam a decisão por ela, fácil assim. E se a família se mudasse para uma cidade mais calma, perto de um acidente geográfico maravilhoso? O mar, que saudade do mar.  Poderiam mudar de ramo, o marido e ela, fazer algo menos estafante. Mas... e a faculdade dos pimpolhos, daqui a 16 anos? E se não houvesse mais faculdade federal? E se eles não conseguissem passar no vestibular? E se... E se?

  Um dos gêmeos choramingou de novo. Febre. O outro também. O marido largou o laptop e dormiu. A noite prometia.

2 comentários:

  1. Quem já não passou por isso?!
    E mesmo assim...não desistimos.
    Abração,
    Juh

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