quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Adélia Prado me (des)entendendo

Só a Adélia Prado p/ me salvar do (des)entendimento...

Tempo



A mim que desde a infância venho vindo

como se o meu destino

fosse o exato destino de uma estrela

apelam incríveis coisas:

pintar as unhas, descobrir a nuca,

piscar os olhos, beber.

Tomo o nome de Deus num vão.

Descobri que a seu tempo

vão me chorar e esquecer.

Vinte anos mais vinte é o que tenho,

mulher ocidental que se fosse homem

amaria chamar-se Eliud Jonathan.

Neste exato momento do dia vinte de julho

de mil novecentos e setenta e seis,

o céu é bruma, está frio, estou feia,

acabo de receber um beijo pelo correio.

Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.

 
Ex-voto
 
Na tarde clara de um domingo quente, surpreendi-me


Intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro

Desejo de raspar a cabeça e me por nua no centro da minha vida

E uivar até me secarem os ossos

Que queres que eu faça Deus?





Quando parei de chorar, o homem que me aguardava disse-me:

Voce é muito sensível, por isso tem falta de ar!

Chorei de novo porque era verdade e era também mentira, sendo só meio consolo





Respira fundo, insistiu !

Joga água fria no rosto, vamos dar uma volta, é psicológico





Que ex-voto levo à Aparecida se nao tenho doença e só lhe peço a cura?

Minha amiga devota se tornou budista. Torço para que se desiluda e volte a rezar comigo as orações católicas.





Eu nunca ia ser budista!

Por medo de não sofrer, por medo de ficar zen

Existe santo alegre ou são os biógrafos que os põem assim felizes como bobos?





Minas tem coisas terríveis.

A serra da piedade me transtorna.

Em meio a tanta rocha de tão imediata beleza, edificações geridas pelo inferno, pelo descriador do mundo.





O menino não consegue mais, vai morrer, sem força para sugar a corda de carne preta do que seria um seio, agora às moscas.





Meu coração é bom mas não aceita que o seja.

O homem me presenteia.

Porque tanto recebo quando seria justo mandarem-me à solitária?





Palavras não, eu disse. Eu só aceito chorar!

Porque então limpei os olhos quando avistei roseiras e mais o que não queria, de jeito nenhum queria aquela hora, o poema, meu ex-voto.

Não a forma do que é doente, mas do que é são em mim.

E rejeito e rejeito premida pela mesma força do que trabalha contra a beleza das rochas.





Me imploram amor Deus e o mundo.

Sou pois mais rica que os dois.

Só eu posso dizer a pedra: És bela até a aflição!

O mesmo que dizer a ele: Sois belo, belo, sois belo.





Quase entendo a razão da minha falta de ar

Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor.





A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo.
 
 
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E eu continuo a escrever... Nada que se possa postar aqui - minha tese, preparando-me para a banca de qualificação.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sobre "Água Viva"

Reli "Água Viva" no sábado, noite adentro. Deu-me imensa vontade de copiar aqui o trecho que vai abaixo. Eu me leio nas páginas da Clarice (assim, "da", com artigo definido, como se fôssemos íntimas)...


Eis a Clarice Lispector que me lê, em "Água Viva" (p. 82, 83):


"Como te explicar? Vou tentar. É que estou percebendo uma realidade enviesada. Vista por um corte oblíquo.[...] Agora adivinho que a vida é outra. Que viver não é só desenrolar sentimentos grossos - é algo mais sortilégico e mais grácil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a existência feneça no que tem de oblíquo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e não existe nisso contradição.


A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.


E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de um longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.


Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vendo e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante, levitação e sonhos no dia aberto: vivo a riqueza da terra.


Sim. A vida é muito oriental. Só algumas pessoas escolhidas pela fatalidade do acaso provaram da liberdade esquiva e delicada da vida. É como saber arrumar flores num jarro: uma sabedoria quase inútil. Essa liberdade fugitiva da vida não deve ser jamais esquecida: deve estar presente como um eflúvio.
 
Viver essa vida é mais um lembrar-se indireto dela do que um viver direto. Parece uma convalescença macia de algo que no entanto poderia ter sido absolutamente terrível. Só para os iniciados a vida então se torna fragilmente verdadeira. E está-se no instante-já: come-se a fruta na sua vigência". (LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Artenova, 1973. p. 82-83)