quarta-feira, 27 de outubro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Domingueira III
Este é para quem lembra da letra do jingle antigo do Fantástico.
O fantástico domingo de Ana
O jingle do Fantástico não provocou em Ana o costumeiro frio na barriga. Foi pior. Uma tontura, uns engulhos... mal conseguiu chegar ao vaso. A tremedeira depois do vômito não a deixou levantar. O frio do piso a incomodava – não mais do que a situação vexatória. Vergonha própria. Tamanha mulher com medo de segunda-feira. Domingo, para ela, era a antevéspera do inferno. Depois que o inferno vinha, os diabos nem eram tão grandes e vermelhos assim. Mas e se nem sempre fosse assim? A dúvida tornava, a cada domingo, os capetas em gigantes mais colossais.
Cambaleando, zonza, a mãe a consolava:
- Pelo menos botou pra fora. Não passa mal amanhã.
Quando ela passava pela sala, a irmã mais nova, deitada no colo do noivo, retruca:
- Sorte tua: foi-se a macarronada. Se não, amanhã, terias que malhar... E isso tu não fazes, né, maninha?
Os risinhos maldosos da irmã e do futuro cunhado deram-lhe vontade de voltar ao banheiro... Não venceu. Vomitou novamente - nos pés do cunhado. A irmã se enfureceu:
- Sua gorda porca! Só porque tu não arranjas ninguém não precisa espantar meu noivo. – O rosto da irmã estava verde de raiva. – Ô, mãe, olha a Ana aqui, que nojo.
Enquanto a confusão instaurava-se na sala, o pai a puxou ao quarto. Trouxe-lhe chá e remédio. Cobriu-a com um edredom, como fazia na infância. Ela se sentiu aliviada. O pai fez menção de ligar a tevê, mas ela fez que não...
- Era só para relaxar, Ana, ver uma bobagem no Fantástico antes de dormir...
O estômago retorceu-se novamente. O remédio contra náusea já começava a fazer efeito: um soninho... Sobressaltou-se: e se o chefe não tivesse recebido o relatório? E se tivesse selecionado o endereço de e-mail errado? E se o relatório estivesse todo errado? E se os cálculos estivessem errado? Se tivesse feito um terrível erro de concordância? O jingle pedia: “Olhe bem, preste atenção”. Não, ela nunca olhava bem. Não o suficiente. Era imensa, inadequada, exagerada no que não precisa. Nunca sabia o que era essencial ou acessório. Nenhum acessório lhe caía bem. Nada servia. Viu uma vendedora da loja, que consultara o estoque para ver se havia algo que servisse. “Nada na mão, nesta também” – continuava o jingle. Lembrou do médico charlatão que prometera o emagrecimento rápido. “Nós temos mágicas para fazer”. Só o que diminuiu foi sua conta bancária. “Milhares de sonhos só para sonhar”. O cunhado asqueroso que lhe apresentou um primo encalhado e psicopata, “Miragens que não se pode contar”. E aquele colega novo que entrou no escritório? Tão lindo, simpático, sensível. Até conversou com ela como se ela fosse gente. “Numa fração de um segundo qualquer emoção agita o mundo.” Mas saiu com a colega loira de farmácia. A loirosa sabia que ela gostou dele. Nem remorso sentiu. E ainda espalhou. “Riso, criado por quem é mestre”. Vão casar, os dois. O que ele vê nela, aquela burra? “Sexo, sem ele o mundo não cresce”. Mas eles, os colegas, ainda pagariam caro pelas brincadeiras sem graça. “Guerra, pra matar e morrer / Amor, que ensina a viver”. Qual nada. O tempo se encarregaria de levar tudo, “Foguete no espaço / Rumo ao infinito / Provando que tudo / Não passa de um mito”. Mágoas e rancores vão para o espaço. O efeito do Plasil “É fantástico”.
Ela só queria ser feliz. Provar que conseguiria conquistar alguém. Com 35 anos, “da idade da pedra” à beira de ser titia, qualquer alguém, “Ao homem de plástico”. Nada como ser sincera consigo mesma: “é o show da vida”. “É fantástico”.
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