terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Cecília não sabia

Contei essa história ontem à noite para o João Pedro. Quando escrevi, claro que mudei um pouco. O texto ainda está "verde". Pensei nele sendo lido para crianças de 4 ou 5 anos. Lá vai.

Cecília não sabia

Cecília nunca sabia.


Cecília não decidia.

Se chovia, lamentava não brincar na rua.

Se fazia sol, queria chuva, filme e pipoca.

Se Carolina a convidava para brincar de boneca,

Se Carlinhos a chamava para jogar cinco marias,

Cecília sentava na calçada.

Cecília nunca sabia.

Cecília não decidia.



Com tanta indecisão,

Cecília não brincava,

Cecília não sorria,

Não se divertia!



Um dia, foi convidada para o aniversário da Rachel.

Puxa, todos seus amigos estariam lá!

Palhaço, pastel, pique-esconde, bala de coco.

Mas com que vestido ela iria?

O azul ou o vermelho?

De sandália ou de sapato?

De cachos soltos ou presos em um laço?

E o presente? Uma boneca ou um livro?

E agora?

Cecília não sabia.

Cecília não decidia.



Passou dia

Passou semana

Chegou o grande dia

Cecília ainda não sabia.

A mãe comprou o presente.

Pacote colorido, problema resolvido.

Mas o vestido?

Por que escolher é tão dolorido?



“Quem escolhe, deixa”

Dizia seu professor.

Cecília não queria deixar

Precisava a tudo aproveitar!



Sentada na cama

Porta do armário aberta

Olhava seus vestidos

Dava as costas ao relógio.



Passou minuto

Passou hora

A amiga Sofia entrou no quarto:

- Você não vem não?

Puxou Cecília pela mão.

- Mas e o vestido? Azul ou vermelho?

Perguntou a menina aflita.

- Se não sabe, veste o listrado!

Vamos, o parabéns já está atrasado!

Cecília gostou da ideia.

Como não havia pensado?

Mas o cabelo? Os sapatos?

Os amigos gostavam dela até despenteada,

Avisou a Sofia apressada!

Cecília olhou para o fundo do seu coração

Estava feliz e descompassado

Não precisava olhar mais para os detalhes não.

Ela escolheu o que já havia conquistado:

Os amigos, o carinho e muita diversão!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Vingança

Agora em primeira pessoa ...

Ele estava parado no local onde eu supunha. Era o dia. Estacionei mais adiante. No banco de trás, meus auxiliares anteviam o sucesso de mais uma empreitada. Os brutamontes que contratei deram uma volta na quadra. Gostei do cuidado. Profissionais. Foram infindáveis dois minutos até a abordagem. Pelo retrovisor, vi quando eles o socaram para dentro do carro. Arrancaram em alta velocidade. Eu segui, discreta, até o local combinado.


Quando entrei na velha cabana abandonada, o desgraçado já estava amordaçado e amarrado em decúbito dorsal sobre uma mesa, nu, do jeito como eu ordenei. Serviço rápido e de primeira. Paguei com gosto os brutamontes, avisei que iria precisar deles mais vezes e mandei-os embora. O resto era comigo e com meus auxiliares.

Peguei a mala que eu deixara no dia anterior. Arrumei tudo sobre uma mesa de apoio: bisturi elétrico, bisturi frio, tesouras retas e curvas, pinças. Ele estava ali, imóvel, o safado. Ele, enfim, veria o que é abusar de um indefeso. Aquelas costas peludas me deram nojo. Depilei-as e esterilizei a área. O animal nada fazia. Sequer um movimento. Assim não teria a menor graça. Ele nem saberia por que estava ali. Provoquei:

- Você quer saber o que lhe vai acontecer? Ah, coitadinho, não pode responder...

A criatura não se moveu. Não estaria me ouvindo? Gritei no ouvido dele:

- Lembra daquela criancinha que você matou? Pois é, a polícia não o pegou.

O monstro deu um grunhido. Ainda ria, o pulha. Ele não fazia idéia de com quem se meteu.

- Mas eu peguei. Eu sou bem pior do que polícia.

O demônio continuava a rir. Se ele queria deboche, era o que teria:

- Deboche, é? Vou lhe dar a chance de redenção. Vai doar vários órgãos para salvar vidas de papais e mamães de várias criancinhas como aquela que você...

O traste debateu-se. Era tudo o que eu queria. Levantei a cabeça do animal pelas crinas e gritei:

- Assim é que eu gosto. Com emoção e sem anestesia!

E ordenei:

- Bisturi, por favor!