domingo, 30 de agosto de 2009

Não me cabe no possível

Não me cabe no possível a fragilidade da vida.
Não me cabe no possível uma vida interrompida.
Não me cabe no possível não saber quando se está dando o último abraço.
A impossibilidade de voltar o tempo,
A inevitabilidade da tragédia anunciada,
A impassibilidade diante da morte,
Os bons morrerem cedo,
Também não me cabem no possível.

Não me cabe no possível saber
que um sorriso singularmente contagioso não ilumina mais esse mundo.
Que um espírito vibrante, enteosusiamado, não habita mais um corpo.
Que uma história de amor ficou em um ponto e vírgula.

Não me cabe no possível intuir
quanto sofrimento há nos silêncios diluídos.
Quantas lágrimas escondem outras lágrimas.

Só me cabe no possível a lembrança do sorriso. Do abraço confortável. Do amigo. Do coração do tamanho do universo. Do apoio. Do entusiasmo.
Cedo demais, ele, que era todo entusiasmo, está no seu lugar.In teos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Promessa II

Ela adotou a menina. Colocou cortinas rendadas nas janelas. Uma guirlanda na porta. Escolheram tintas e móveis. Reconstruiu o forno de barro. Cortou a goiabeira. Plantou flores e legumes. Reformou a casinha da árvore. Comprou laços de fita para os cabelos da pequena. Roupas cor-de-rosa. O Batalhão das Letras. Um Labrador caramelo. Bordou toalhas de banho com os seus apelidos – novas vidas, novos nomes. Trancou os fantasmas no porão. Ela zelava pela felicidade da filha. Sessão da tarde e pipoca. Reinações de Narizinho antes de dormir. Uma pessoa de bem. Mãe, enfim. Uma família. Nidificaram. O lugar do pai estava vago. Ela e ele se encontraram, olharam-se. Não se amaram. Eram convenientes. Elas precisavam de um pai. Ele, de uma família. Ninho para a menina, status para ele, sonho para ela. Casaram-se – pompa e circunstância. Viajavam, frequentavam, aconteciam. Ela não ouvia o que lhe diziam sobre ele. Não lia o que escreviam sobre ele os jornais. Não via que ele chegava tarde. Não sentia o seu cheiro de perfume vagabundo e de uísque caro. Negava tudo. Negar não pôde a notificação judicial. Ele trapaceara. Ela mandou a filha para a Disney.
Agora eram só os dois. De igual para igual. Tinha seus contatos. Colocou a raiva em conserva por vários dias para servi-la naquele café da manhã. Mesa no quintal florido. Toalha da Ilha da Madeira, copos de cristal, porcelana fina, suco com sonífero. Ele dormiu. Ela o amarrou a uma cadeira, junto à mesa posta. Escreveu uma carta de suicida. Conhecia bem o gênero. Ele acordou. De revólver em punho, ela apresentou a carta impressa.
̶ - Assina! Nada de tremer a letra. ̶ ordenou ela.
̶ - Sua louca, o que é isso? Não vou assinar nada! ̶ - disse ele, derrubando uma xícara.
-̶ Não precisas, mando do teu e-mail para todos os teus contatos. Senha com nome do time de futebol, coisa mais patética! ̶ disse, rindo e engatilhando a arma. ̶ Se tu assinares, é morte indolor. Se tu não assinares, morres devagarinho, devagarinho... Achas que não aprendi nada em vinte anos?
̶ - O que eu te fiz, criatura? Pensa na nossa filha, o que vai ser dela, pelo-amor-de-deus!- ̶ gritava ele.
̶ -Assina! Tua filha nada! Minha! – Berrava, apontando-lhe a arma.
- Ele assinou. Ela recolheu depressa o papel. Encostou o revólver na cabeça dele.
̶ -O que tu vais fazer agora? Por que tudo isso? Tu não és assassina...
̶ -Experimenta para ver! Tu mereces. Aquelas empresas-fantasma no meu nome... ̶ gritou.
̶ - Só usei teus documentos. Iria dar tudo certo não fossem aquelas escutas... ̶ falou, soluçando.
̶ - Desgraçado! ̶ - rosnou ela, dando-lhe uma bofetada no rosto e um chute na canela. ­̶ Então o que dizem os jornais é verdade...
̶ - Eles não sabem da missa um terço. Mas não é por isso que tu vais te sujar. Me tira daqui, pensa, pensa! ̶- implorava.
̶ -Tu desviaste aquele dinheiro todo. ̶- gritava ela, cuspindo-lhe na cara. - Ladrão! Safado! Pilantra! Ordinário! ... ̶ gritava ela, cuspindo-lhe na cara.
̶ - Aquilo e muito mais, que está lá, guardadinho, esperando por nós, só deixando passar a turbulência, meu amor! ̶ - serpenteou.
­Ela baixou a arma. Atirou-a no chão. Aproximou-se dele. Bem perto. Hálito com hálito. Beijou-o. Sentou no seu colo. Colocou a mão por baixo da cadeira e arrancou um gravador colado com fita adesiva. Rebobinou. Ouviu um trecho. Gritou:
̶ -Podem vir!
Policiais infestaram o jardim florido. Desamarraram-no. Algemaram-no. Ela entrou na casa. Espiou entre as cortinas: levaram-no, enfim. A felicidade da filha estava a salvo. Eliminou o chupim. Acomodou-se na melhor poltrona da sala, esperando o tempo passar.
Ao fim de uma hora, ela conferiu seu saldo bancário na internet. Fez uma transferência. Sorriu. Fechou a casa. Colocou um cadeado no porão. Tirou as cortinas de renda. Recolheu a guirlanda. Ajeitou-as em malas, junto com as roupas cor-de-rosa, as toalhas bordadas, O Batalhão das Letras e Reinações de Narizinho. Colocou o Labrador no banco de trás da Hilux que acabaram de entregar. Conferiu os documentos do veículo, os seus e os da menina. Novos nomes, nova vida. No painel do carro, um bilhete com seu novo endereço, chaves e controle remoto do portão. A filha aguardava-a no aeroporto.