Scliar chega ao céu. Ao lado de São Pedro, Mário Quintana o aguarda e o saúda:
- Estás adiantado para os teus compromissos! - diz, jocoso, o poeta.
Scliar, como sempre, responde à altura:
- E dá para chegar atrasado à verdadeira imortalidade?
As risadas e os abraços são interrompidos por um cabisbaixo assessor de São Pedro:
- Sr. Jaime Moacyr Scliar, por favor, queira se sentar ali.
O assessor aponta a Scliar uma salinha e alguns sofás, como a de um consultório médico. São Pedro, bonachão, interrompe:
- Ô, Cyro, eu falei que não concordava com esse trote...
O assessor levanta a cabeça: Scliar o reconhece:
- Cyro Martins, que satisfação!
Ao que outro responde:
- O Pedrão aí não entende de trote médico! Eu queria te deixar ali sentado um tempão, com revistas velhas, esperando, esperando o julgamento...
Quintana intervém:
- Mas não achamos justo o trote. O Scliar nunca fez isso com ninguém. Vamos logo ao julgamento...
- Julgamento? – sorri, educado, Scliar.
- É, é sim... Vem por aqui. – Conduz Quintana.
Na sala do tribunal, a assistência sorri e abana para Scliar. Na primeira fila, sorridentes, estão sentados Caio Fernando Abreu, Barbosa Lessa, Alcides Maia, Josué Guimarães, Dyonélio Machado... Na segunda fila, Jorge Amado, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Cecília Meireles... Quintana conduz Scliar a uma cadeira, de frente para a mesa do juiz.
O juiz adentra o recinto. Scliar o reconhece:
- Erico!!! Quero dizer, Sua Excelência Erico Verissimo!
O juiz esforça-se para não rir:
- Seja muito bem-vind... er... Quero dizer... Podem sentar. – O juiz titubeia. – Já estão sentados. Que venham os advogados.
Um advogado se apresenta, em reverência:
- Só estou eu aqui, Excelência, seu mui fiel criado... Nem campereando no inferno se achou uma alma que quisesse ser da acusação.
Scliar não se contém:
- Simões Lopes Neto, só pode ser!!!
O advogado sufoca uma risada. O juiz inicia:
- Vamos aos fatos. Família?
- Exemplar pai e marido, Excelência. – Diz o advogado.
- Amizades? – Interroga mais uma vez o juiz.
- Muito a constar. Vamos chamar as testemunhas? – pergunta o advogado.
O juiz olha a lista. Não, muita gente. Só da parte da defesa. Resolve:
- Não, não precisa. Nem os jornais falam mal dele. Era um exemplo de bonomia. Vamos para o próximo item: qualidade das obras literárias?
O advogado entrega um dossiê em 20 volumes. Resenhas, artigos e críticas positivas.
- Além do quê – como é de saber corrente – ele era imortal da Academia Brasileira de Letras...
O juiz suspende a sessão:
- Parece que um juiz precisa olhar as provas. É assim que se faz? Estão todos dispensados. - Decide Verissimo.
Mas ninguém sai do lugar. Scliar chama por Quintana:
- Por gentileza, o que faço agora?
- Espera, ué... Uns dois mil anos... - Diz o anjo poeta, com as bochechas vermelhas.
- Dois mil anos... – Suspira, desanimado, Scliar.
Quintana conduz Scliar pelo corredor. Quando está saindo da sala, a plateia não aguenta e explode em risos. Chega Manuel Bandeira correndo e diz:
- Brincadeirinha! Entra, Scliar, aqui você não precisa pedir licença.
quinta-feira, 17 de março de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Os golpes
OS GOLPES
O velho, guaiaca forrada, na flor da melhor idade, resolveu assumir o filho bastardo, fruto de uma paixão entre os pés de milho da fazenda. Mandou buscar o rapaz. Moço alto, taludo, cuja robustez muito orgulhava o pai – “olha só o que eu fiz” -, pensava ele, estufando o peito de orgulho. Criado na roça, no meio do nada, o que sobrava de atributos físicos ao rapaz, faltava-lhe em traquejo, em esperteza. Temendo que algum malandro ou alguma sirigaita se aproveitasse da ingenuidade do filho, o pai resolveu ter uma conversa de pé-de-orelha com o rapaz:
- Olha, filho, sei que tu és um bagualão, mas as coisas aqui em Porto Alegre são diferentes lá da fazenda...
O filho nem piscava. O velho continuou:
- Agora, tu tens pai rico, carteira forrada... Tens que te cuidar para não caíres no bico doce de qualquer sirigaita. Já ouviste falar no golpe do baú?
- Não ouvi, não, senhor. – Respondeu o moço, grudando os olhos no tapete.
A situação era pior do que o velho imaginava. Temeroso da resposta, continuou:
- E do golpe da barriga, sabes do que se trata?
O rapaz avermelhou. Apenas balançou a cabeça, quase a enfiando entre os joelhos.
O pai sentiu a pressão subir. Era só o que lhe faltava: sua fortuna, a tanto suor construída, ir parar nas mãos de uma aventureirazinha qualquer. Como iria entrar nesses assuntos com um bagualão desses? Não tinham intimidade para tanto. Resolveu mudar o rumo das perguntas:
- E só falta tu me dizeres que não conheces o golpe do bilhete premiado, da mala, do final de semana grátis na serra ou na praia...
O moço só fazia que não com a cabeça. O velho, impaciente, ralhou com o rapaz:
- E o que tu entendes de golpes, então, criatura? Tu cairias em qualquer um?
Envergonhado, o rapaz respondeu:
- O único que até a gente conhece lá nas grotas é o golpe do leilão do craque... Parece que a mesma pessoa já conseguiu aplicar duas vezes num pessoal muito inteligente lá na tal de Azenha ...
O velho, guaiaca forrada, na flor da melhor idade, resolveu assumir o filho bastardo, fruto de uma paixão entre os pés de milho da fazenda. Mandou buscar o rapaz. Moço alto, taludo, cuja robustez muito orgulhava o pai – “olha só o que eu fiz” -, pensava ele, estufando o peito de orgulho. Criado na roça, no meio do nada, o que sobrava de atributos físicos ao rapaz, faltava-lhe em traquejo, em esperteza. Temendo que algum malandro ou alguma sirigaita se aproveitasse da ingenuidade do filho, o pai resolveu ter uma conversa de pé-de-orelha com o rapaz:
- Olha, filho, sei que tu és um bagualão, mas as coisas aqui em Porto Alegre são diferentes lá da fazenda...
O filho nem piscava. O velho continuou:
- Agora, tu tens pai rico, carteira forrada... Tens que te cuidar para não caíres no bico doce de qualquer sirigaita. Já ouviste falar no golpe do baú?
- Não ouvi, não, senhor. – Respondeu o moço, grudando os olhos no tapete.
A situação era pior do que o velho imaginava. Temeroso da resposta, continuou:
- E do golpe da barriga, sabes do que se trata?
O rapaz avermelhou. Apenas balançou a cabeça, quase a enfiando entre os joelhos.
O pai sentiu a pressão subir. Era só o que lhe faltava: sua fortuna, a tanto suor construída, ir parar nas mãos de uma aventureirazinha qualquer. Como iria entrar nesses assuntos com um bagualão desses? Não tinham intimidade para tanto. Resolveu mudar o rumo das perguntas:
- E só falta tu me dizeres que não conheces o golpe do bilhete premiado, da mala, do final de semana grátis na serra ou na praia...
O moço só fazia que não com a cabeça. O velho, impaciente, ralhou com o rapaz:
- E o que tu entendes de golpes, então, criatura? Tu cairias em qualquer um?
Envergonhado, o rapaz respondeu:
- O único que até a gente conhece lá nas grotas é o golpe do leilão do craque... Parece que a mesma pessoa já conseguiu aplicar duas vezes num pessoal muito inteligente lá na tal de Azenha ...
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