domingo, 22 de março de 2020

Texto e abordagem - Mulheres do Mar - Projeto Ler 2019


Mulheres do mar

A menina, filha da terra, na beira do mar
Sorri com as mãos em prece, olhos a brilhar
O vento soprou favorável
Dia do encontro inexorável
Deusas ancestrais
Ondas radicais.
Rainhas do mar
Dia de surfar.

A menina vai ligeira
Lembra Janaína, Iemanjá,
Deusa mais que brasileira
Mãe de orixá.

A menina ressurge da espuma marinha
Tal qual Afrodite, deusa antiga,
Dos marinheiros, a razão da cantiga.
Muito mais do que uma garotinha.

Doma as ondas a hábil surfista
A prancha, sua cauda de sereia;
O mar é o palco da artista
Que revive deusas d’além da areia.

Sereias, Iara, Afrodite, Iemanjá,
A menina é todas em uma só inspiração.
Espelha-se nelas, coragem é o que há
Na mente, no corpo e no coração.

Mulheres dos mares, mulheres dos oceanos
Deusas, lendas, vivas em histórias,
Inspiram meninas, inspiram vitórias:
Rainhas dos sentimentos humanos.


ABORDAGEM DO TEXTO MULHERES DO MAR

1 Atividades de motivação
- Exibição do vídeo de surf do bicampeão mundial Gabriel Medina. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=z8W--3P7Ho8
- Observação de uma prancha de surf: quais são as partes, para que servem. (Por exemplo, pode ser consultado, para tanto, o site Alone surf, disponível em: https://alonesurf.com.br/tudo-sobre-prancha-surf/).

2 Pré-leitura/ ativação dos conhecimentos prévios
- Vocês sabem quem é Gabriel Medina?
- Vocês sabem quem é a atual campeã brasileira de surf?
- Vocês conhecem algum surfista ou alguma surfista?
- Já foram à praia? Já tomaram banho de mar? Gostariam de ir (de novo)? Por quê?
- Do que pode tratar um poema cujo título é Mulheres do mar? Quais são as atividades que poderiam fazer lá?

3 Atividades de leitura-descoberta
a) Sobre a primeira estrofe:
- Por que a menina está sorrindo na beira do mar? O que ela poderia estar pensando?
- Por que a menina está com as mãos em prece?
- A que encontro o poema se refere?
- Qual é a relação entre “vento favorável” e o encontro da menina?
- Veja o seguinte significado de “inexorável”:

Descrição: Resultado de imagem para inexorável significado
Fonte: Dicionário On-Line

Levando em conta esse significado, por que o encontro da menina seria “inexorável”?

- Quem seriam as “Rainhas do mar” das quais o poema fala?

b) Sobre a segunda estrofe:
- A quem a menina é comparada? Por quê?
- Quem se chama “Janaína”?
- Quem é mãe de Orixá?
- A que religião o texto faz referência?

c) Sobre a terceira estrofe:
- Reorganize os versos a fim de que a rima fique emparelhada e mais clara.
- De qual deusa da mitologia greco-latina o poema fala?
- Pesquise:
·         O que essa deusa tem a ver com a espuma do mar?
·         Quem são os marinheiros que cantavam para essa deusa?

d) Sobre a quarta estrofe:
- A quem a menina é comparada? Por quê?
- Qual é a outra comparação contida na quarta estrofe?
e) Afinal, quais seriam as “mulheres do mar” das quais fala o poema?
f) Por que essas mulheres seriam inspiração para a menina?
g) O poema fala em “mulheres do mar, mulheres do oceano”. Pesquise: qual é a diferença entre “mar” e “oceano”?
h) Faça uma tabela: o que cada uma dessas “deusas” inspiraria para a menina?
i) Tendo em vista essas inspirações, como você imagina a menina?
j) No último verso do poema, lemos: “Rainhas dos sentimentos humanos”. Quais sentimentos as histórias dessas personagens mítico-religiosas poderiam despertar nas pessoas?

4 Atividade de pós-leitura
a)      Pesquise sobre as “mulheres” mencionadas no texto: Iemanjá, Iara, Sereia, Afrodite e anote:

Origem
Outros nomes
O que representa
Iemanjá



Iara



Sereia



Afrodite




b)      Pesquise sobre os surfistas e as surfistas do Brasil: quem são os atuais campeões e as atuais campeãs. Verifique também se há o mesmo destaque para o surf feminino e para o surf masculino na mídia. Reflita sobre isso.
c)      O poema fala que as “mulheres do mar” são “rainhas dos sentimentos humanos”. O mar, porém, nos desperta vários sentimentos.
Imagine-se, agora, à beira do mar, na praia, em um dia de céu azul e de temperatura agradável.
Descreva seus pensamentos e seus sentimentos.

d)     Se você estivesse à beira do mar, qual seria a sua vontade inexorável? Escreva sobre isso. 

Poema e abordagem - "À luz da ciência" - fascículo II de 2019



               
 À luz da ciência


A menina com o brilho do céu na menina dos olhos
Tece com números e palavras novos dias.
O menino com a luz da lua cheia no sorriso dos lábios e das bochechas
Constrói com pipetas, lunetas, caretas novos amanhãs.
Dias novinhos em folha:
Página a página,
Ombro a ombro,
Passo a passo,
Mão a mão.

Meninas, meninos
Silêncios, risadas, concentração.
Dúvidas, curiosidades, hipóteses:
Problemas têm solução
Na mente e no coração.

Nas linhas dos textos,
Nos sinais da natureza,
Nas pistas do laboratório,
Crianças, moças, moços
Trilham a aventura
Das descobertas, da construção
De dias ensolarados
De dias iluminados
De amanhãs melhorados
De futuros partilhados
Pela luz da ciência
Pelo lume da consciência. 

ABORDAGEM DO POEMA  À LUZ DA CIÊNCIA

1 Atividade de motivação

1.1     Desenho espontâneo a partir da audição de uma música
·         Ouvir com os alunos a canção de Gonzaguinha intitulada De volta ao começo, cuja letra é a seguinte:
E o menino com o brilho do sol
Na menina dos olhos
Sorri e estende a mão
Entregando o seu coração
E eu entrego o meu coração
E eu entro na roda
E canto as antigas cantigas
De amigo irmão
As canções de amanhecer
Lumiar e escuridão
E é como se eu despertasse de um sonho
Que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito
Com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse que a força
Esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente eu chegasse
Ao fundo do fim
De volta ao começo
Ao fundo do fim
De volta ao começo
·         Enquanto toca a música, os alunos vão desenhando/rabiscando livremente, de acordo com as emoções e ideias que a música lhes sugerir.
·         Em seguida, a professora mostra a letra da música, faz leitura conjunta com os alunos e conduz uma conversação:
- Qual parte da música seus desenhos mais retratam?
            - Sobre quais assuntos a música fala?
            - Você conhece cantigas de roda? Quais? Por que a música fala nisso?
            - Como seria um menino “com o brilho do sol na menina dos olhos”?
            - O que faz seus olhos brilharem?
            - E na escola, algo faz seus olhos brilharem? Por quê?
            - Estudar que tipos de assuntos poderiam fazer seus olhos brilharem?
            - No futuro, o que você acha que fará seus olhos brilharem?

2 Pré-leitura

·         A professora pergunta:
- Seus olhos já brilharam devido a algo que foi inventado pelo ser humano? O quê? Por quê?
- Como acha que alguém faz para inventar uma inovação na ciência e na tecnologia?
- Será que os olhos dos cientistas também brilham? Por quê? Quando?
·         A partir do diálogo com os alunos, a professora anuncia que lerão um poema que começa semelhante à música que escutaram e que fala da vontade de pessoas descobrirem coisas novas, que ajudarão a humanidade.

3 Leitura-descoberta

a)      Como seriam o menino e a menina descritos no poema? Por que eles têm brilho no olhar e no sorriso?
b)      Desenhe os rostos do menino e da menina de acordo com o que você imagina a partir da leitura do poema. Apresente seus desenhos e explique como eles se relacionam com o poema.
c)      O que seria, de modo concreto, tecer com palavras e números novos amanhãs? Ou seja: a qual atividade o poema está se referindo?
d)     Como é o amanhã que você está tecendo para si mesmo(a) a partir do modo como se relaciona com as palavras e com os números?
e)      Como seria o amanhã que o menino está construindo? De modo concreto, o que ele faz?
f)       Você acha que está agindo mais como a menina ou como o menino do texto? Por quê?
g)      O poema diz que a menina e o menino constroem “dias novinhos em folha”. Como se faz isso?
h)      Como você imagina que seja construir “dias novinhos em folha”:
- passo a passo?
- ombro a ombro?
- página a página?
i) Para o poema, quais seriam os “materiais” necessários para a construção de novos dias? O que o conhecimento e a ciência têm a ver com isso?
j) Por que, segundo o poema, para resolver problemas usamos a mente e o coração?
k) Segundo o poema, o que seria necessário para construirmos um amanhã melhor?
l) E você, o que acha que precisamos para construir um amanhã melhor?
m) Compare o poema e a música, usando, para isso, o seguinte quadro:

Poema X Música
Pontos em comum
Pontos divergentes






4 Pós-leitura

·         Pesquise sobre uma invenção que tornou o futuro da humanidade melhor: quem inventou, quando inventou, por que inventou, como essa invenção nos ajuda nos dias de hoje.
·         Pense em algo que gostaria de inventar para ajudar a humanidade. Desenhe essa invenção, dê um nome para ela e descreva o passo a passo de como utilizá-la.
·         Faça uma lista de ações necessárias para um amanhã melhor. Depois, enumere quem ou o que pode auxiliar a conseguir executá-las com o seguinte código (que é apenas um exemplo):
CI – para Ciências;
FI – para Filosofia;
PSI – para Psicologia;
CO – para Conhecimentos;
AM – para Amor;
ET – para Ética;
JUS – para Justiça.
Ou crie seu próprio código!
Em seguida, observe: quais siglas foram as mais citadas? Em alguns casos, foi possível colocar só uma sigla, por quê?
Desse modo: o que você, como estudante, pode começar a fazer agora por um amanhã melhor?
·         A partir do poema, da música e das reflexões, crie um poema que fale como meninos e meninas, auxiliado pelas ciências exatas e humanas, podem contribuir para a construção de um amanhã melhor. 





segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Essa sereia na areia

A sereia na areia
Não hesita nem titubeia
Essa sereia na areia.

Sereia de duas pernas
Vencedora de guerras internas
Linda sempre, eterna aprendiz
Essa sereia de sorriso feliz.

Sereia de cabelos dourados
Dona de saberes conjugados
Seu lugar é onde quiser
Essa sereia mais que mulher.

Sereia de canto sedutor
Dona do som criador
Ensina com a música ensinar
Essa sereia de ninar.

Essa sereia na areia
Brinca, sonha, norteia
 Volta para o mar quando quiser.
Sereia, mãe, mestra, mulher.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Pontinhos Sorridentes

Texto publicado no fascículo III de 2016 do Projeto Ler...

terça-feira, 29 de março de 2016

De volta à casa da Vovó Sinistra

Os primos João Pedro e Gabriela estavam eufóricos: passariam a noite na casa da avó. Isso, por si só, já seria bom, mas tinha mais: aquela Vovó era a mais radical e sinistra que uma criança poderia ter.
As mães de ambas as crianças chegaram ao mesmo tempo à casa da Vovó. Só as largaram lá e saíram apressadas. João Pedro e Gabriela adentraram juntos aquele lindo e original sobrado roxo com bolinhas amarelas.  Logo chamaram:
- Vovó, seus netinhos chegaram! – anunciou Gabriela.
- Vovó, estou com fome de pizza! – avisou João Pedro.
As crianças continuaram chamando pela Vovó, mas nada de ela aparecer. Por onde andaria?  Foram andando pela casa. Na chão da cozinha, encontraram o seguinte aviso escrito com sal:
SE QUISEREM VER A VOVÓ DE NOVO, TERÃO QUE DESCOBRIR QUEM ELA É.
A PRIMEIRA PISTA ESTÁ NA BOCA DAQUELE QUE NÃO LAVA O PÉ.

Gabriela resmungou um “era só o que faltava”. João Pedro animou-se: era uma caçada. Mas logo depois pensou alto:
- E se a vovó estiver correndo perigo, prima?
- Tá bom, mas depois eu quero uma fatia a mais da pizza de quatro queijos – disse a menina, disfarçando a preocupação. – Por onde começamos?
- Quem é que não lava o pé? O sapo, naquela música boba. Mas onde tem sapo aqui?
Gabriela apontou para cima: em uma prateleira alta, havia uma coleção de sapos. Sapos de barro, de porcelana, de ferro, de vidro, de cristal...
Com ajuda de uma escada, João Pedro examinou a coleção. Na boca de um sapo, havia um papelzinho enrolado. Dentro dele, estava escrito o seguinte:
QUEM É A AVÓ VOCÊS PRECISAM SABER
E DE SEUS GOSTOS DEVEM ENTENDER
OUÇAM A MÚSICA LINDA DE DOER
UMA BRASA, MORA, DE ENLOUQUECER.

- Vamos fuçar naqueles discos da vovó – sugeriu João Pedro.
- Aqueles que ela chama de Vinícius? – perguntou Gabriela.
João Pedro teve um acesso de riso: não era Vinícius. Era vinil. A vó também chamava de bolachões. O que a dupla não entendeu era onde entrava a brasa e onde ela morava.
Junto aos discos – do Roberto Carlos, da Vanderleia, do Renato e seus Blue Caps, entre outros –, havia uma caixa de madeira, fechada com um cadeado de combinação de números. Nele, havia uma etiqueta colada, na qual se lia: A SENHA É O ANO DE NASCIMENTO DA VOVÓ.
E agora? Como descobrir? João Pedro teve uma ideia:
- Prima, com que idade as meninas casam e têm bebês?
- Na idade que quiserem, ué. Que pergunta mais boba.
- Tá, mas mais ou menos...
Discutiram, discutiram. Chegaram à conclusão de que, se as mães os tiveram com cerca de 30 anos, e agora a mais velha delas tinha 40... 30 mais 40 é igual a 70. Se a avó tinha 70, a conta era 2016 menos 70, o que dava... 1946. Colocaram o número. Não deu certo. Tentaram 1945. O cadeado abriu.
Dentro da caixa, havia uma coisa muito esquisita, de plástico, retangular, com dois furos pelos quais passava uma espécie de fita marrom. Era mais ou menos assim:
Ilustração de fita K7  com a escrita: “ouça-me se for capaz”.
                Como ouvir aquilo? Gabriela balançou o objeto, colocou perto do ouvido. Deveria haver um aparelho para encaixar aqueles dois buracos. Mas onde?
                - Que tal aquele? —perguntou João Pedro, apontando para um aparelho retangular com uma tampa móvel. — Tem uma tecla escrito “play”.
                Abriram a tampa, fizeram os devidos encaixes e apertaram o play. Do aparelho saiu a voz nada melodiosa da avó, que cantava:
Netinhos queridos, do meu coração,
A próxima pista está no porão
É de iluminar
Cuidado para não incendiar
Não é lâmpada, não é da cidade,
É de querosene, não de eletricidade.

                E o medo de ir àquele porão? O que se faria com ele? De conta que não existia, ué! As crianças desceram ao porão, mas, claro, ligaram as luzes. Eram tantas coisas diferentes lá: até identificaram uma máquina de escrever, igual à que viram no museu naquela visita com a escola. Mas o que seria aquele objeto de iluminar? Gabriela não tinha certeza, mas só poderia ser aquele de vidro, já que tinha um papel roxo dentro dele. Bingo: acharam mais uma pista, que, em letras prateadas, dizia:
Slacks, brim coringas, japonas:
Só os nomes é que são cafonas.
Bata, redingote, carpim:
Todo mundo chamava assim.
É lá que devem procurar por mim.
               
Procurar onde? O que queriam dizer aquelas palavras? Os primos pensaram, pensaram. Lembraram que “cafona” quer dizer brega: já viram isso em uma aula. O que a vovó tinha de mais brega eram roupas. E bem na frente deles havia um enorme baú. Só poderia ser de roupas velhas. Tentaram arrastá-lo para perto da claridade das lâmpadas, contudo pesava demais. Abriram ali mesmo: será que havia outra pista? Tiraram blusas, vestidos – tudo muito colorido e floreado. A cara da vovó! Mas algo se mexeu e gemeu:
- Uhuuuuuuuuuu!
Os primos sentiram um clarão no rosto, que os cegou por um instante. Recobrada a visão, viram a Vovó saindo do baú, rindo e conferindo no seu celular, de última geração, a foto da cara assustada dos netos, anunciando:

- Essa vai para o álbum de família!

domingo, 27 de dezembro de 2015

Pelznickel - uma história de Natal

Pelznickel

Eu varria todas as folhas do pátio de terra batida. Era preciso recolher todas, todinhas. Nenhuma folha de cinamomo restaria no chão. Com meus braços curtos,  levantei a vassoura o mais que eu pude. Com toda a força do meu corpo magro, bati nos galhos das árvores. “Se quiserem cair, Donas Folhas, que caiam agora” – tive vontade de gritar. Mas precisava me comportar. Ainda mais em véspera de Natal, que o Pelznickel andava espiando tudo por aí. Eu tinha pena das crianças que não se comportavam. O Pelznickel nunca deixava por menos de umas varadas nas pernas de crianças boazinhas como eu, imagina nas malvadas. Eu até que achava bem-feito no começo. Depois me dava pena. Ainda mais do Morito, meu irmão. Ele era medonho, eu sei, mas esperava que neste ano não apanhasse tanto do Pelznickel. E que não fizesse cocô nas calças como no ano passado. Não sei agora se senti mais raiva ou nojo ou pena ou pavor dele.
                É claro que também era dia de carnear porco. Só me lembrei disso quando vi o Kallu, primo da mãe, despontando lá na curva dos trilhos. Ele era quem fazia o serviço. O pai dizia que ele era o melhor do mundo com uma faca na mão, a pena era que esse louco ainda morreria cedo, andando de pés descalços por aí. A Frau Schmidt profetizava que seria de bichas na barriga, igual àquela história do Jeca Tatu do Almanaque do Biotônico. Eu queria dizer a ela que a história não era bem assim, mas criança não podia se meter nas conversas dos adultos. Se eu ganhasse um tapa da mãe na frente de todo mundo, eu jurava que eu e ela não sairíamos mais na rua de vergonha.
                Será que quando o Kallu morresse não existiriam mais dias de carnear porcos? Sempre me perguntava. Eu odiava esses dias. Quando conseguia, fugia correndo pelos trilhos para não ouvir os gritos dos pobrezinhos. Está certo que eu comia a carne, porque criança tinha que comer tudo o que a mãe e o pai conseguiam botar no prato dela. Naquele dia, não fugiria pelo óbvio motivo do Pelznickel. Eu odiava o Kallu, seus dedões batatudos, sua adaga e seu facão na cinta. Eu não podia odiar o pai, que isso é passagem pro inferno. Eu tentava não ter pena do porco, que dizem que se alguém na casa tem pena o bicho sofre mais para morrer. Eu pensava firme, tentava desviar o pensamento, que esbarrava no Pelznickel e na certeza de algumas varadas nas pernas à noite.
                A mãe chamou pra dentro, ver o pinheirinho e o presépio terminados. A nossa casa era pobre, mas o pinheirinho e o presépio eram coisa de ricos, já que ganhávamos todas as peças do mostruário de um tio, que era representante comercial. Não fazia nem ideia do que fosse isso de representante comercial, mas parecia ser coisa fina. Pena que mulher não podia ser isso, se não eu até chegaria a querer ser isso quando fosse grande. Eu queria ser freira, mas o tio Germano me disse que costuram as partes das freiras, e elas fazem suas necessidades pela boca. Eu era muito nojenta para isso, que Jesus me perdoasse. Eu podia mesmo era ser professora, já que era muito inteligente.
                O pinheirinho ficou lindo, com todas aquelas bolas de vidro coloridas e aquelas velinhas penduradas. A mãe disse que  acenderíamos todas  quando o Pelznickel chegasse. Quem sabe assim ele não bateria tanto, pensei. E aquelas ovelhinhas no presépio, feitas de lã, eram novidades do mostruário do tio. Tudo tão lindo, tudo para o Christkindl.  E as vaquinhas, e os burrinhos, e os camelos, e os patinhos, e os gansos, e o porco lá fora berrando feito louco.
                Havia tanta coisa para fazer, tanta tarefa, tanto grito de “Valquíria, vem cá” que eu nem vi o dia passar. E o Morito? Só na sombra. Não queria nem ver a hora que o Pelznickel o pegasse. Ou queria? Não sei, só sei que a mãe chamou que era hora de tomar café e, depois, banho, para esperar as visitas bem cheirosa e penteada como toda a menina deve ser. O bom de café de Natal era mergulhar os toss no café com leite. Eu sempre preferi aqueles com açúcar e canela; o Morito, os pintados com merengue branco. Nem pelos toss nós brigávamos.
                Depois do banho, a mãe mandou que eu colocasse aquele vestido estampado de branco e preto que foi do enterro da vó Regina. Eu gostava especialmente do laço branco na cintura, que era bem parecido com o que havia no vestido da boneca de louça que eu ganhei da minha madrinha Odette. Eu já sabia que era sortuda de ter uma madrinha assim, e essa sorte me acompanha por toda a minha vida, na lembrança amorosa dela. Passou-me pela cabeça a ideia de vesti-lo do avesso, pois diziam que isso espantava as bruxas. Quem sabe não espantaria o Pelznickel? Mas não dava: todo mundo riria de mim.
                O Morito e eu sentamos na sala, junto com as primas, os primos, os tios e as tias que vieram de longe. Na mesinha do centro, havia pão de laranja, os toss mais bonitos, cuca de uva, cerveja feita em casa, spritzbeer. Os melhores pratos e copos da casa estavam bem arrumadinhos em um canto. O pai e a mãe começaram a acender as velinhas do pinheiro. Pressenti a chegada do Pelznickel. Olhei bem para a cara dos meus primos, medonhos que eram. A Theresa tinha lágrimas nos olhos. Neste ano, não sobraria varada para mim, pensei, de má que fui. Repreendi esse pensamento ruim com uma silenciosa e entrecortada Ave-Maria.
                Um bicho preto de carvão surgiu na porta da sala, batendo um sino na mão direita. Na esquerda, segurava um relho de cavalo e uma vara de marmelo. Na cabeça, um chapéu de palha tão esfarrapado e sujo quanto sua roupa. O medo não me deixava encará-lo. Olhei para baixo e vi os pés descalços e os dedões de batata ainda mais monstruosos do que os do Kallu. Ele já foi perguntando quem não se “gombortou”, forçando um sotaque, quem não via que era deboche? A Tia já foi dedurando os filhos, de ruim que ela era. O animal preto de carvão botou as três crianças em fila para passar o chicote. Quando estalou o chicote no ar, ele bateu em uma das velas. Só eu vi. Estava muda. Aterrorizada. Eu vi o fogo nas ovelhinhas de lã. Eu ouvi meus primos chorando. Eu queria, queria falar. Fechei meus olhos e comecei a gritar “Fogo, fogo”, só esperando a dor cortante e fina do chicote sobre os meus ombros. Mas não. Escutei os berros da tia, da mãe, do pai, senti o leve tremor das tábuas do soalho de madeira, com os passos apressados. O tio me tirou dali, levou para a área dos fundos. Lá, na bacia ao lado da talha, o Pelznickel lavava sua cara preta, revelando sua identidade. Não havia Pelznickel? Nunca houve? Era tudo mentira mesmo, como a Leoni, que nem enxerga direito, havia me segredado? Era só mais uma maldade do Kallu?

                Não havia mais apenas uma menina de vestido bonito e de laço de fita. Era alguém que começava a suspeitar das mentiras do mundo.