domingo, 12 de julho de 2020
domingo, 22 de março de 2020
Texto e abordagem - Mulheres do Mar - Projeto Ler 2019
Mulheres do
mar
A menina,
filha da terra, na beira do mar
Sorri com as
mãos em prece, olhos a brilhar
O vento soprou
favorável
Dia do
encontro inexorável
Deusas
ancestrais
Ondas
radicais.
Rainhas do mar
Dia de surfar.
A menina vai
ligeira
Lembra
Janaína, Iemanjá,
Deusa mais que
brasileira
Mãe de orixá.
A menina
ressurge da espuma marinha
Tal qual
Afrodite, deusa antiga,
Dos
marinheiros, a razão da cantiga.
Muito mais do
que uma garotinha.
Doma as ondas
a hábil surfista
A prancha, sua
cauda de sereia;
O mar é o
palco da artista
Que revive
deusas d’além da areia.
Sereias, Iara,
Afrodite, Iemanjá,
A menina é
todas em uma só inspiração.
Espelha-se
nelas, coragem é o que há
Na mente, no
corpo e no coração.
Mulheres dos
mares, mulheres dos oceanos
Deusas,
lendas, vivas em histórias,
Inspiram
meninas, inspiram vitórias:
Rainhas dos
sentimentos humanos.
ABORDAGEM
DO TEXTO MULHERES DO MAR
1
Atividades de motivação
-
Exibição
do vídeo de surf do bicampeão mundial Gabriel Medina. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=z8W--3P7Ho8
- Observação de uma prancha de surf: quais
são as partes, para que servem. (Por exemplo, pode ser consultado, para tanto,
o site Alone surf, disponível em: https://alonesurf.com.br/tudo-sobre-prancha-surf/).
2
Pré-leitura/ ativação dos conhecimentos prévios
- Vocês sabem quem é Gabriel Medina?
- Vocês sabem quem é a atual campeã
brasileira de surf?
- Vocês conhecem algum surfista ou
alguma surfista?
- Já foram à praia? Já tomaram banho de mar?
Gostariam de ir (de novo)? Por quê?
- Do que pode tratar um poema cujo
título é Mulheres do mar? Quais são
as atividades que poderiam fazer lá?
3
Atividades de leitura-descoberta
a)
Sobre a primeira estrofe:
-
Por
que a menina está sorrindo na beira do mar? O que ela poderia estar pensando?
- Por que a menina está com as mãos em
prece?
- A que encontro o poema se refere?
- Qual é a relação entre “vento
favorável” e o encontro da menina?
- Veja o seguinte significado de
“inexorável”:

Fonte: Dicionário On-Line
Levando em conta esse significado, por
que o encontro da menina seria “inexorável”?
- Quem seriam as “Rainhas do mar” das
quais o poema fala?
b)
Sobre a segunda estrofe:
-
A
quem a menina é comparada? Por quê?
- Quem se chama “Janaína”?
- Quem é mãe de Orixá?
- A que religião o texto faz referência?
c)
Sobre a terceira estrofe:
- Reorganize os versos a fim de que a
rima fique emparelhada e mais clara.
- De qual deusa da mitologia
greco-latina o poema fala?
- Pesquise:
·
O que essa deusa tem a ver com a espuma
do mar?
·
Quem são os marinheiros que cantavam
para essa deusa?
d)
Sobre a quarta estrofe:
-
A
quem a menina é comparada? Por quê?
- Qual é a outra comparação contida na
quarta estrofe?
e)
Afinal, quais seriam as “mulheres do mar” das quais fala o poema?
f) Por que essas mulheres seriam
inspiração para a menina?
g) O poema fala em “mulheres do mar,
mulheres do oceano”. Pesquise: qual é a diferença entre “mar” e “oceano”?
h) Faça uma tabela: o que cada uma
dessas “deusas” inspiraria para a menina?
i) Tendo em vista essas inspirações,
como você imagina a menina?
j) No último verso do poema, lemos:
“Rainhas dos sentimentos humanos”. Quais sentimentos as histórias dessas
personagens mítico-religiosas poderiam despertar nas pessoas?
4
Atividade de pós-leitura
a)
Pesquise sobre as “mulheres” mencionadas
no texto: Iemanjá, Iara, Sereia, Afrodite e anote:
|
|
Origem
|
Outros nomes
|
O que representa
|
|
Iemanjá
|
|
|
|
|
Iara
|
|
|
|
|
Sereia
|
|
|
|
|
Afrodite
|
|
|
|
b)
Pesquise sobre os surfistas e as
surfistas do Brasil: quem são os atuais campeões e as atuais campeãs. Verifique
também se há o mesmo destaque para o surf feminino e para o surf masculino na
mídia. Reflita sobre isso.
c)
O poema fala que as “mulheres do mar” são
“rainhas dos sentimentos humanos”. O mar, porém, nos desperta vários
sentimentos.
Imagine-se,
agora, à beira do mar, na praia, em um dia de céu azul e de temperatura
agradável.
Descreva
seus pensamentos e seus sentimentos.
d)
Se você estivesse à beira do mar, qual
seria a sua vontade inexorável? Escreva sobre isso.
Poema e abordagem - "À luz da ciência" - fascículo II de 2019
A menina com o brilho do céu na menina dos olhos
Tece com números e palavras novos dias.
O menino com a luz da lua cheia no sorriso dos lábios e das
bochechas
Constrói com pipetas, lunetas, caretas novos amanhãs.
Dias novinhos em folha:
Página a página,
Ombro a ombro,
Passo a passo,
Mão a mão.
Meninas, meninos
Silêncios, risadas, concentração.
Dúvidas, curiosidades, hipóteses:
Problemas têm solução
Na mente e no coração.
Nas linhas dos textos,
Nos sinais da natureza,
Nas pistas do laboratório,
Crianças, moças, moços
Trilham a aventura
Das descobertas, da construção
De dias ensolarados
De dias iluminados
De amanhãs melhorados
De futuros partilhados
Pela luz da ciência
Pelo lume da consciência.
ABORDAGEM DO POEMA À LUZ
DA CIÊNCIA
1
Atividade de motivação
1.1 Desenho
espontâneo a partir da audição de uma música
·
Ouvir com os alunos a canção de
Gonzaguinha intitulada De volta ao
começo, cuja letra é a seguinte:
E
o menino com o brilho do sol
Na
menina dos olhos
Sorri
e estende a mão
Entregando
o seu coração
E
eu entrego o meu coração
E
eu entro na roda
E
canto as antigas cantigas
De
amigo irmão
As
canções de amanhecer
Lumiar
e escuridão
E
é como se eu despertasse de um sonho
Que
não me deixou viver
E
a vida explodisse em meu peito
Com
as cores que eu não sonhei
E
é como se eu descobrisse que a força
Esteve
o tempo todo em mim
E
é como se então de repente eu chegasse
Ao
fundo do fim
De
volta ao começo
Ao
fundo do fim
De
volta ao começo
·
Enquanto toca a música, os alunos vão
desenhando/rabiscando livremente, de acordo com as emoções e ideias que a
música lhes sugerir.
·
Em seguida, a professora mostra a letra
da música, faz leitura conjunta com os alunos e conduz uma conversação:
- Qual parte da
música seus desenhos mais retratam?
-
Sobre quais assuntos a música fala?
-
Você conhece cantigas de roda? Quais? Por que a música fala nisso?
-
Como seria um menino “com o brilho do sol na menina dos olhos”?
-
O que faz seus olhos brilharem?
-
E na escola, algo faz seus olhos brilharem? Por quê?
-
Estudar que tipos de assuntos poderiam fazer seus olhos brilharem?
-
No futuro, o que você acha que fará seus olhos brilharem?
2
Pré-leitura
·
A professora pergunta:
-
Seus olhos já brilharam devido a algo que foi inventado pelo ser humano? O quê?
Por quê?
-
Como acha que alguém faz para inventar uma inovação na ciência e na tecnologia?
-
Será que os olhos dos cientistas também brilham? Por quê? Quando?
·
A partir do diálogo com os alunos, a
professora anuncia que lerão um poema que começa semelhante à música que
escutaram e que fala da vontade de pessoas descobrirem coisas novas, que
ajudarão a humanidade.
3 Leitura-descoberta
a)
Como seriam o menino e a menina
descritos no poema? Por que eles têm brilho no olhar e no sorriso?
b)
Desenhe os rostos do menino e da menina
de acordo com o que você imagina a partir da leitura do poema. Apresente seus
desenhos e explique como eles se relacionam com o poema.
c)
O que seria, de modo concreto, tecer com
palavras e números novos amanhãs? Ou seja: a qual atividade o poema está se
referindo?
d)
Como é o amanhã que você está tecendo
para si mesmo(a) a partir do modo como se relaciona com as palavras e com os
números?
e)
Como seria o amanhã que o menino está
construindo? De modo concreto, o que ele faz?
f)
Você acha que está agindo mais como a
menina ou como o menino do texto? Por quê?
g)
O poema diz que a menina e o menino
constroem “dias novinhos em folha”. Como se faz isso?
h)
Como você imagina que seja construir
“dias novinhos em folha”:
-
passo a passo?
-
ombro a ombro?
-
página a página?
i)
Para o poema, quais seriam os “materiais” necessários para a construção de
novos dias? O que o conhecimento e a ciência têm a ver com isso?
j)
Por que, segundo o poema, para resolver problemas usamos a mente e o coração?
k)
Segundo o poema, o que seria necessário para construirmos um amanhã melhor?
l)
E você, o que acha que precisamos para construir um amanhã melhor?
m)
Compare o poema e a música, usando, para isso, o seguinte quadro:
Poema
X Música
Pontos
em comum
|
Pontos
divergentes
|
4 Pós-leitura
·
Pesquise sobre uma invenção que tornou o
futuro da humanidade melhor: quem inventou, quando inventou, por que inventou,
como essa invenção nos ajuda nos dias de hoje.
·
Pense em algo que gostaria de inventar
para ajudar a humanidade. Desenhe essa invenção, dê um nome para ela e descreva
o passo a passo de como utilizá-la.
·
Faça uma lista de ações necessárias para
um amanhã melhor. Depois, enumere quem ou o que pode auxiliar a conseguir
executá-las com o seguinte código (que é apenas um exemplo):
CI
– para Ciências;
FI
– para Filosofia;
PSI
– para Psicologia;
CO
– para Conhecimentos;
AM
– para Amor;
ET
– para Ética;
JUS
– para Justiça.
Ou crie seu próprio código!
Em
seguida, observe: quais siglas foram as mais citadas? Em alguns casos, foi
possível colocar só uma sigla, por quê?
Desse
modo: o que você, como estudante, pode começar a fazer agora por um amanhã
melhor?
·
A partir do poema, da música e das
reflexões, crie um poema que fale como meninos e meninas, auxiliado pelas
ciências exatas e humanas, podem contribuir para a construção de um amanhã
melhor.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
Essa sereia na areia
A sereia na areia
Não hesita nem titubeia
Essa sereia na areia.
Sereia de duas pernas
Vencedora de guerras internas
Linda sempre, eterna aprendiz
Essa sereia de sorriso feliz.
Sereia de cabelos dourados
Dona de saberes conjugados
Seu lugar é onde quiser
Essa sereia mais que mulher.
Sereia de canto sedutor
Dona do som criador
Ensina com a música ensinar
Essa sereia de ninar.
Essa sereia na areia
Brinca, sonha, norteia
Volta para o mar quando quiser.
Sereia, mãe, mestra, mulher.
Não hesita nem titubeia
Essa sereia na areia.
Sereia de duas pernas
Vencedora de guerras internas
Linda sempre, eterna aprendiz
Essa sereia de sorriso feliz.
Sereia de cabelos dourados
Dona de saberes conjugados
Seu lugar é onde quiser
Essa sereia mais que mulher.
Sereia de canto sedutor
Dona do som criador
Ensina com a música ensinar
Essa sereia de ninar.
Essa sereia na areia
Brinca, sonha, norteia
Volta para o mar quando quiser.
Sereia, mãe, mestra, mulher.
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
terça-feira, 29 de março de 2016
De volta à casa da Vovó Sinistra
Os primos João Pedro e Gabriela
estavam eufóricos: passariam a noite na casa da avó. Isso, por si só, já seria
bom, mas tinha mais: aquela Vovó era a mais radical e sinistra que uma criança
poderia ter.
As mães de ambas as crianças
chegaram ao mesmo tempo à casa da Vovó. Só as largaram lá e saíram apressadas.
João Pedro e Gabriela adentraram juntos aquele lindo e original sobrado roxo
com bolinhas amarelas. Logo chamaram:
- Vovó, seus netinhos chegaram! –
anunciou Gabriela.
- Vovó, estou com fome de pizza!
– avisou João Pedro.
As crianças continuaram chamando
pela Vovó, mas nada de ela aparecer. Por onde andaria? Foram andando pela casa. Na chão da cozinha,
encontraram o seguinte aviso escrito com sal:
SE QUISEREM VER A VOVÓ DE
NOVO, TERÃO QUE DESCOBRIR QUEM ELA É.
A PRIMEIRA PISTA ESTÁ NA
BOCA DAQUELE QUE NÃO LAVA O PÉ.
Gabriela resmungou um “era só o
que faltava”. João Pedro animou-se: era uma caçada. Mas logo depois pensou
alto:
- E se a vovó estiver correndo
perigo, prima?
- Tá bom, mas depois eu quero uma
fatia a mais da pizza de quatro queijos – disse a menina, disfarçando a
preocupação. – Por onde começamos?
- Quem é que não lava o pé? O
sapo, naquela música boba. Mas onde tem sapo aqui?
Gabriela apontou para cima: em
uma prateleira alta, havia uma coleção de sapos. Sapos de barro, de porcelana,
de ferro, de vidro, de cristal...
Com ajuda de uma escada, João
Pedro examinou a coleção. Na boca de um sapo, havia um papelzinho enrolado.
Dentro dele, estava escrito o seguinte:
QUEM É A AVÓ VOCÊS PRECISAM SABER
E DE SEUS GOSTOS DEVEM ENTENDER
OUÇAM A MÚSICA LINDA DE DOER
UMA BRASA, MORA, DE ENLOUQUECER.
- Vamos fuçar naqueles discos da
vovó – sugeriu João Pedro.
- Aqueles que ela chama de
Vinícius? – perguntou Gabriela.
João Pedro teve um acesso de
riso: não era Vinícius. Era vinil. A vó também chamava de bolachões. O que a
dupla não entendeu era onde entrava a brasa e onde ela morava.
Junto aos discos – do Roberto
Carlos, da Vanderleia, do Renato e seus Blue Caps, entre outros –, havia uma
caixa de madeira, fechada com um cadeado de combinação de números. Nele, havia
uma etiqueta colada, na qual se lia: A SENHA É O ANO DE NASCIMENTO DA VOVÓ.
E agora? Como descobrir? João
Pedro teve uma ideia:
- Prima, com que idade as meninas
casam e têm bebês?
- Na idade que quiserem, ué. Que
pergunta mais boba.
- Tá, mas mais ou menos...
Discutiram, discutiram. Chegaram
à conclusão de que, se as mães os tiveram com cerca de 30 anos, e agora a mais
velha delas tinha 40... 30 mais 40 é igual a 70. Se a avó tinha 70, a conta era
2016 menos 70, o que dava... 1946. Colocaram o número. Não deu certo. Tentaram
1945. O cadeado abriu.
Dentro da caixa, havia uma coisa
muito esquisita, de plástico, retangular, com dois furos pelos quais passava
uma espécie de fita marrom. Era mais ou menos assim:
Ilustração de fita K7 com a escrita: “ouça-me se for capaz”.
Como
ouvir aquilo? Gabriela balançou o objeto, colocou perto do ouvido. Deveria
haver um aparelho para encaixar aqueles dois buracos. Mas onde?
- Que
tal aquele? —perguntou João Pedro, apontando para um aparelho retangular com
uma tampa móvel. — Tem uma tecla escrito “play”.
Abriram
a tampa, fizeram os devidos encaixes e apertaram o play. Do aparelho saiu a voz
nada melodiosa da avó, que cantava:
Netinhos queridos, do meu coração,
A próxima pista está no porão
É de iluminar
Cuidado para não incendiar
Não é lâmpada, não é da cidade,
É de querosene, não de eletricidade.
E o medo de ir àquele porão?
O que se faria com ele? De conta que não existia, ué! As crianças desceram ao porão,
mas, claro, ligaram as luzes. Eram tantas coisas diferentes lá: até identificaram uma
máquina de escrever, igual à que viram no museu naquela visita com a escola.
Mas o que seria aquele objeto de iluminar? Gabriela não tinha certeza, mas só
poderia ser aquele de vidro, já que tinha um papel roxo dentro dele. Bingo:
acharam mais uma pista, que, em letras prateadas, dizia:
Slacks, brim coringas, japonas:
Só os nomes é que são cafonas.
Bata, redingote, carpim:
Todo mundo chamava assim.
É lá que devem procurar por mim.
Procurar onde? O que queriam
dizer aquelas palavras? Os primos pensaram, pensaram. Lembraram que “cafona”
quer dizer brega: já viram isso em uma aula. O que a vovó tinha de mais brega
eram roupas. E bem na frente deles havia um enorme baú. Só poderia ser de
roupas velhas. Tentaram arrastá-lo para perto da claridade das lâmpadas, contudo
pesava demais. Abriram ali mesmo: será que havia outra pista? Tiraram blusas,
vestidos – tudo muito colorido e floreado. A cara da vovó! Mas algo se
mexeu e gemeu:
- Uhuuuuuuuuuu!
Os primos sentiram um clarão no
rosto, que os cegou por um instante. Recobrada a visão, viram a Vovó saindo do
baú, rindo e conferindo no seu celular, de última geração, a foto da cara
assustada dos netos, anunciando:
- Essa vai para o álbum de
família!
domingo, 27 de dezembro de 2015
Pelznickel - uma história de Natal
Pelznickel
Eu varria todas as folhas do pátio de terra batida. Era
preciso recolher todas, todinhas. Nenhuma folha de cinamomo restaria no chão.
Com meus braços curtos, levantei a
vassoura o mais que eu pude. Com toda a força do meu corpo magro, bati nos
galhos das árvores. “Se quiserem cair, Donas Folhas, que caiam agora” – tive vontade
de gritar. Mas precisava me comportar. Ainda mais em véspera de Natal, que o
Pelznickel andava espiando tudo por aí. Eu tinha pena das crianças que não se
comportavam. O Pelznickel nunca deixava por menos de umas varadas nas pernas de
crianças boazinhas como eu, imagina nas malvadas. Eu até que achava bem-feito
no começo. Depois me dava pena. Ainda mais do Morito, meu irmão. Ele era
medonho, eu sei, mas esperava que neste ano não apanhasse tanto do Pelznickel.
E que não fizesse cocô nas calças como no ano passado. Não sei agora se senti
mais raiva ou nojo ou pena ou pavor dele.
É claro
que também era dia de carnear porco. Só me lembrei disso quando vi o Kallu,
primo da mãe, despontando lá na curva dos trilhos. Ele era quem fazia o
serviço. O pai dizia que ele era o melhor do mundo com uma faca na mão, a pena
era que esse louco ainda morreria cedo, andando de pés descalços por aí. A Frau
Schmidt profetizava que seria de bichas na barriga, igual àquela história do
Jeca Tatu do Almanaque do Biotônico. Eu queria dizer a ela que a história não era
bem assim, mas criança não podia se meter nas conversas dos adultos. Se eu
ganhasse um tapa da mãe na frente de todo mundo, eu jurava que eu e ela não
sairíamos mais na rua de vergonha.
Será
que quando o Kallu morresse não existiriam mais dias de carnear porcos? Sempre
me perguntava. Eu odiava esses dias. Quando conseguia, fugia correndo pelos
trilhos para não ouvir os gritos dos pobrezinhos. Está certo que eu comia a
carne, porque criança tinha que comer tudo o que a mãe e o pai conseguiam botar
no prato dela. Naquele dia, não fugiria pelo óbvio motivo do Pelznickel. Eu
odiava o Kallu, seus dedões batatudos, sua adaga e seu facão na cinta. Eu não
podia odiar o pai, que isso é passagem pro inferno. Eu tentava não ter pena do
porco, que dizem que se alguém na casa tem pena o bicho sofre mais para morrer.
Eu pensava firme, tentava desviar o pensamento, que esbarrava no Pelznickel e
na certeza de algumas varadas nas pernas à noite.
A mãe
chamou pra dentro, ver o pinheirinho e o presépio terminados. A nossa casa era
pobre, mas o pinheirinho e o presépio eram coisa de ricos, já que ganhávamos
todas as peças do mostruário de um tio, que era representante comercial. Não
fazia nem ideia do que fosse isso de representante comercial, mas parecia ser
coisa fina. Pena que mulher não podia ser isso, se não eu até chegaria a querer
ser isso quando fosse grande. Eu queria ser freira, mas o tio Germano me disse
que costuram as partes das freiras, e elas fazem suas necessidades pela boca.
Eu era muito nojenta para isso, que Jesus me perdoasse. Eu podia mesmo era ser
professora, já que era muito inteligente.
O pinheirinho
ficou lindo, com todas aquelas bolas de vidro coloridas e aquelas velinhas
penduradas. A mãe disse que acenderíamos
todas quando o Pelznickel chegasse. Quem
sabe assim ele não bateria tanto, pensei. E aquelas ovelhinhas no presépio,
feitas de lã, eram novidades do mostruário do tio. Tudo tão lindo, tudo para o Christkindl. E as
vaquinhas, e os burrinhos, e os camelos, e os patinhos, e os gansos, e o porco
lá fora berrando feito louco.
Havia tanta coisa para fazer,
tanta tarefa, tanto grito de “Valquíria, vem cá” que eu nem vi o dia passar. E
o Morito? Só na sombra. Não queria nem ver a hora que o Pelznickel o pegasse.
Ou queria? Não sei, só sei que a mãe chamou que era hora de tomar café e,
depois, banho, para esperar as visitas bem cheirosa e penteada como toda a
menina deve ser. O bom de café de Natal era mergulhar os toss no café com
leite. Eu sempre preferi aqueles com açúcar e canela; o Morito, os pintados com
merengue branco. Nem pelos toss nós brigávamos.
Depois do banho, a mãe mandou
que eu colocasse aquele vestido estampado de branco e preto que foi do enterro
da vó Regina. Eu gostava especialmente do laço branco na cintura, que era bem
parecido com o que havia no vestido da boneca de louça que eu ganhei da minha
madrinha Odette. Eu já sabia que era sortuda de ter uma madrinha assim, e essa
sorte me acompanha por toda a minha vida, na lembrança amorosa dela. Passou-me
pela cabeça a ideia de vesti-lo do avesso, pois diziam que isso espantava as bruxas.
Quem sabe não espantaria o Pelznickel? Mas não dava: todo mundo riria de mim.
O Morito e eu sentamos na sala,
junto com as primas, os primos, os tios e as tias que vieram de longe. Na
mesinha do centro, havia pão de laranja, os toss mais bonitos, cuca de uva,
cerveja feita em casa, spritzbeer. Os melhores pratos e copos da casa estavam
bem arrumadinhos em um canto. O pai e a mãe começaram a acender as velinhas do
pinheiro. Pressenti a chegada do Pelznickel. Olhei bem para a cara dos meus
primos, medonhos que eram. A Theresa tinha lágrimas nos olhos. Neste ano, não sobraria
varada para mim, pensei, de má que fui. Repreendi esse pensamento ruim com uma
silenciosa e entrecortada Ave-Maria.
Um bicho preto de carvão surgiu
na porta da sala, batendo um sino na mão direita. Na esquerda, segurava um
relho de cavalo e uma vara de marmelo. Na cabeça, um chapéu de palha tão
esfarrapado e sujo quanto sua roupa. O medo não me deixava encará-lo. Olhei
para baixo e vi os pés descalços e os dedões de batata ainda mais monstruosos
do que os do Kallu. Ele já foi perguntando quem não se “gombortou”, forçando um
sotaque, quem não via que era deboche? A Tia já foi dedurando os filhos, de
ruim que ela era. O animal preto de carvão botou as três crianças em fila para
passar o chicote. Quando estalou o chicote no ar, ele bateu em uma das velas.
Só eu vi. Estava muda. Aterrorizada. Eu vi o fogo nas ovelhinhas de lã. Eu ouvi
meus primos chorando. Eu queria, queria falar. Fechei meus olhos e comecei a
gritar “Fogo, fogo”, só esperando a dor cortante e fina do chicote sobre os
meus ombros. Mas não. Escutei os berros da tia, da mãe, do pai, senti o leve
tremor das tábuas do soalho de madeira, com os passos apressados. O tio me
tirou dali, levou para a área dos fundos. Lá, na bacia ao lado da talha, o
Pelznickel lavava sua cara preta, revelando sua identidade. Não havia
Pelznickel? Nunca houve? Era tudo mentira mesmo, como a Leoni, que nem enxerga
direito, havia me segredado? Era só mais uma maldade do Kallu?
Não havia mais apenas uma menina
de vestido bonito e de laço de fita. Era alguém que começava a suspeitar das
mentiras do mundo.
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